A Lábia 57_Frio
E que tudo mais vá pro inferno.
“Parece que o sol quebrou”, disse a Sonia, valente zeladora do escritório em que eu trabalho, quando eu enchia pela segunda vez a xícara do café que ela fez, nós duas olhando a avenida Paulista da janela, aquela luz linda de inverno de ombros contraídos, na exuberância confortável da linguagem fática: “Que frio, Sonia!”. Sonia explica: “Parece que ele só tá iluminando, mas não tá funcionando a parte de esquentar”. Achei pragmática e deliciosamente anticientífica a observação da Sonia, um sol quebrado, que deixou de exercer sua função principal.
Na semana em que a temperatura máxima aqui em São Paulo foi dezesseis graus, faço zoons com colegas cariocas cabisbaixos em suas mangas longas, lamentando lá os seus vinte e poucos graus. Eu confesso que gosto, não por aquela bobagem de que “a gente fica mais elegante no frio”, mas porque é bom andar na rua, o vento gelado estimula, eu amo a desolação mambembe dos bonecos de neve brasileiros, o vinho convida e o combo confort sofá-livro-cobertor é escandalosamente convidativo (não vou cometer a covardia de citar os gatos). Mas, até pelo apelo do conforto, minhas leituras estavam disparatadas, erradas mesmo, e fiquei aqui pensando nisso, na adequação climática da leitura ideal, uma teoria absolutamente aleatória e tola, mas vamos lá.
Há uma curiosa relação de equilíbrio vital entre o livro e a vida. Quanto mais bem escrito, com suas metáforas sinestésicas e seu léxico climático, um livro é capaz de evocar no leitor simulações sensoriais nada desprezíveis. Grande Sertão: veredas, por exemplo, é um livro que não se atravessa sem ruído de remanso e canto de passarinho. lê-lo na cidade exige duas vezes mais capacidade de abstração. Não faço a menor ideia de onde eu estava quando li Cem anos de solidão pela primeira vez, mas um radar interno afirma com todas as letras que choveu sem parar ao longo das páginas do dilúvio. Nada me tira da cabeça que eu não gostei como deveria do Jon Fosse porque a primeira tentativa foi à beira do mar carioca, a areia quente, vendedor de mate, aquela luz estonteante do alto verão, capaz de fazer o Meursault dar um tiro num árabe. Ainda sobre calor, Vidas secas me dá uma sede de anteontem, Quarup implora por um repelente e não consigo nem pensar em Não verás país nenhum sem evocar uma manteiga de cacau. De volta ao frio, Sátántangó é o livro mais branco que existe e gela tudo por dentro, O morro dos ventos uivantes traz o som que lhe dá o título e toda a literatura russa, toda, é inseparável de profundas tremedeiras, pés gelados e queixos batendo — o que salpica desde a menor novelinha do Gogol até o monumental Arquipélago Gulag de adjetivos como enregelado, congelante, gélido, glacial.
Tudo isso me leva a crer que há, sim, um tipo de equalização ambiental entre o que a gente lê e o que a gente vive, obviamente quando o livro é escrito com maestria estilística e, mais, com sensibilidade. O que não quer dizer que haja estações do ano ou climas específicos para cada livro — até pelo contrário: às vezes um livro muito quente pode ser o antídoto perfeito para os dias frios, do mesmo jeito que ler um livro bonito e amoroso seja o remédio contra um coração partido, ou, ainda, que seja recomendável estar num estado pleno de conforto emocional para encarar um empreendimento como A vida pequena (eu mesma nunca encarei, talvez não pelas caudalosas mil páginas, mas por desconhecimento do que seria um “estado pleno de conforto emocional”).
N’A Lábia não trabalhamos exatamente com efemérides e temas do momento, justamente por acreditar que a leitura deve ser alegremente desobediente a qualquer lógica, no abraço de tudo que é aleatório. Se escrevo uma edição tão, digamos meteorológica, talvez seja pela descoberta banal de que estamos imersos no mundo, e que é engraçado quando há coincidência entre o que corre por fora e o que corre por dentro. Aqui vão livros de inverno, que proporcionam paisagens espetaculares, que talvez se paguem pelos pés gelados. É um critério idiota? Não nego. Mas é um critério, e, às vezes, um critério é tudo.
Aproveito, pois, o critério torpe e declarar meu amor pelos dias frios. Gosto de tirar os casacos pesados do guarda-roupa, e, em terríveis tempos de aquecimento global, em que cenas do verão devastador na Europa (pessoas tomando banho no Sena, só pode ser o fim do mundo!) me ocorre que talvez seja o último inverno, a última semana com a máxima de dezesseis graus, porque vai saber quando teremos um inverno de novo. Ao me vestir, olho para minhas botas de sola tratorada, minhas meias-calças fio 80, minhas echarpes aveludadas, com uma nostalgia vindoura, como se dissesse a elas: vamos, queridas, em busca do sol geladinho, sejam livres e úteis por mais esses dias, numa espécie de última ceia do Titanic. Pensando bem, um próximo critério besta pode ser “despedida”.
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cardápio da semana
o mais mais
Um preferido da semana, aquele que dá pra indicar para todo mundo
O capote e outros contos, Nikolai Gógol
tradução Paulo Bezerra
Editora 34/ 224 pp
“Todos nós saímos do Capote de Gógol.” A frase atribuída a Dostoiévski (leio aqui na sinopse do livro) é ainda mais apropriada quando eu penso que, para falar de frio, logicamente fui buscar entre os russos o livro mais gelado. Mas eis que, ao pensar em russos, aconteceu um estranho fenômeno: primeiro, veio O nariz, também do Gógol, que eu amo por ser tipo um Kafka, mas que a gente tem certeza de que a maluquice é humor mesmo. Mas aí achei que O nariz ficaria melhor sob o tema de “o duplo”, “o outro”. Depois, pensei no gélido e caliente Noites brancas, esse bestseller inesperado, mas esse é logicamente a estrela de uma edição sobre paixão. O Arquipélago Gulag, aquele monumento, talvez seja o livro mais gelado do mundo, mas não vou desperdiçá-lo climaticamente. Pois escolhi gloriosamente esse O capote, porque no centro de tudo está a indumentária imprescindível dos dias russos, além de ter como protagonista um copista, desolado e coitadinho, que sofre porque no único momento que sai de sua irrelevância é para despertar a chacota de qualquer um numa posição maior que a dele. Daí que ele junta os copeques que nem tem para comprar um capote opulento e quentinho. Quando lhe furtam esse que era o símbolo da própria dignidade, lá vai ele se imbuir de uma ferocidade recém nascida para exigir o que lhe é direito. Que gênio, o Gógol, de provocar comoção com risada, reflexão com alegria, política com literatura.
PS. O link no título leva para o site da Livraria Simples (<3) e o livro está com desconto!
passou batido
Uma pérola em que quase ninguém prestou atenção
Frio o bastante para nevar, Jessica Au
Tradução Fabiane Secches
Fósforo, 96 pp
Peça inquestionável da prateleira dos livros que meu amigo Élvio Cotrim chama de “Livros sobre a mãezinha de vocês”, esse romancinho é sim sobre a relação entre uma mãe e uma filha, mas tudo é caótico o suficiente para dirimir até o irrito do Élvio. Durante uma viagem pelo Japão deslocada e estranha, mãe e filha travam uma luta silenciosa, entre a birra e o rancor, e vão, lá por suas linhas tortas, chegar à conclusão inevitável e universal de que ninguém conhece ninguém. O que eu chamo de linhas tortas é um alinhave esperto de memórias, observações, fluxo de pensamentos, enfeitado pelo cenário bonito e curioso. O livro tem clima de viagem, aquelas turistadas que todos conhecemos, com disputas nem tão discretas pelo poder de decidir se um restaurante ou um museu e um tédio onipresente da falta de surpresa. O surpreendente, como não pode deixar de ser, está no passageiro ao lado, esse estranho revelador.
bestseller
Para provar pra vocês que há mais vendidos que valem a pena
Boneco de neve, Jo Nesbo
Tradução Grete Skevik
Record/ 540 pp
Talvez o mais conhecido dos livros cujo protagonista é o duvidoso herói Harry Hole, um sujeito que bebe demais, tem juízo de menos e consegue deixar insatisfeitos o chefe, as mulheres e o próprio filho. Um detetive com baixa demanda de trabalho (afinal, Noruega) é, entretanto, o único capaz de achar e prender um serial killer, que começa um jogo tétrico construindo bonecos de neve com objetos (e pedaços) das suas vítimas. Bom, um baita thriller, mas o Nesbo é mais que isso — a lógica escandinava, o frio não só da Noruega, mas das pessoas, a elegância dos cenários, o engenho. Inteligente e malandro, faz tudo parecer refinado, e apesar de passar das 500 páginas, eu sinceramente acho um livro excelente para indicar para alguém que quer ler mais mas não consegue se ater a livro nenhum (o que contradiz o dogma de que deve-se sempre começar pelos livros fininhos). Enfim, um gélido e gordo thriller daqueles de virar as páginas até descobrir o fim do mistério.
Um pequeninho
“Se bom e breve, duas vezes bom.”
A mercadoria mais preciosa, Jean-Claude Grumberg
Tradução Rosa Freire D’Aguiar
Todavia/ 80 pp
É muitíssimo natural que uma tragédia da Humanidade como o Holocausto seja tema e motivo de centenas de obras literárias. Essa aqui vai nesse esteira, mas numa pegada inventiva que mostra que sempre teremos mais coração pra vibrar. Um casal que mora num lugar absolutamente frio, frio de não ter jeito, observa sempre um trem meio macabro, meio misterioso, que corta a floresta gélida. Um dia, encontram um pacotinho que foi jogado do trem em meio à neve, a tal mercadoria mais preciosa do título. Pois bem, o pacotinho é um nenê, que vai canalizar todo afeto e beleza daqueles terríveis tempos de guerra. É fábula, é curtinho, tem emoção e beleza, também é um bom caminho para leitores iniciantes.
Servindo bem para servir sempre, botei links em todos os títulos dos livros de que eu falo aqui. Você jamais encontrará um link da Amazon: são todos caminhos para as editoras que fazem esses livros incríveis. Claro que você pode comprar na livraria mais perto da sua casa, compre livros de quem ama os livros, sempre. Se for comprar na Amazon, paciência, entendo, mas pelo menos faça isso com culpa. Pode ser uma militância nanica, mas é a minha militância.






Meu livro de frio favorito é “A mão esquerda da escuridão” hehehhe ai, saudades dos tempos de faculdade no sul quando eu passava os fins de semana debaixo da coberta só lendo ❤️
Que bela crônica, perfeita para ler em Curitiba. Acrescento às suas sugestões de leitura um de meus livros preferidos: de Yasunari Kawabata, O País das Neves.