No último sábado, lá pela quinta (ou sexta) cerveja, num bar que pairava lamentavelmente entre o hipster e o hype, sob os sonoros auspícios da provável pior roda de samba de São Paulo, na conversa que insistia apesar do hype, apesar do samba, o amigo disparou: "Tá tudo muito bem, mas se você tirar as palavras lindo, maravilhoso, incrível não sobra lá muita coisa do que você escreve”. Estávamos, como se vê, falando (ou gritando, posto o samba sonicamente impeditivo) dest’A Lábia. Ainda que levemente combalida pela denúncia irreprochável do meu parco vocabulário, concordei com uma risada algo constrangida que o incentivou a seguir: “Você é adepta da resenha-exaltação, e faz os mais derramados resenhistas parecerem de uma sobriedade exemplar”. Ri mais um pouco, engolindo a sétima (ou oitava) cerveja, e aproveitei que o samba tinha cessado para tentar balbuciar duas ou três frases em minha defesa: “É exaltação, não vou negar, mas não é resenha, não é crítica, não é sério. São dicas de livros, e em dica a gente só fala do que gosta etc.” (ok, não foi uma defesa convincente). Mesmo que algum incauto ainda tentasse me defender, sacando o argumento ad hominem mui refinado de que meu amigo “é chato”, ele ainda insistiu, no golpe final: “É claro que vou continuar lendo, eu gosto, apesar do seu péssimo gosto literário”. Achei alguma graça em sentir subitamente a nostalgia do pior samba de São Paulo e pedi ao garçom pouca-prática a nona (ou décima) cerveja meio quente.
No livro Retrato fragmentado, Ricardo Ramos faz um perfil biográfico do seu pai, Graciliano, costurando cenas soltas, memórias esparsas. Parece um álbum de fotografias, com fragmentos do que era esse pai seco, forte, entre o mau humor e o silêncio, mas com tiradas que são, imagino, a exata medida entre o folclore e a verdade do que era o velho Graça. O filho transcreve ali lições precisas de estilo (e que estilo!) que o pai ia dando ao longo da vida. Um dia, pergunta ao pai por que ele não usa reticências nem exclamações. Graciliano, sem pensar um segundo: “Reticências, porque é melhor dizer do que deixar em suspenso. Exclamações, porque não sou idiota para ficar me espantando à toa”.
Idiota, veja bem. E eu mesma julgo muito apropriada essa palavra para definir grande parte do que se faz hoje, não apenas no esquálido mundinho das pessoas que comentam livros, mas em geral, no imenso universo de gente que comenta tudo: é um cortejo festivo de distribuição de pontos de exclamação assertivos a torto e a direito. “Sensacional”, “musa”, “gênio”, “diva”, “brilhante”, “maravilhoso”. Não precisa pensar muito pra chegar à conclusão de que toda exaltação furiosa tem algo de burro, e que se tudo é bom, nada é bom. Sei bem também que a por assim dizer crítica literária carece de, bem, crítica, mas não quero falar de política da boa vizinhança, rabos presos editoriais, anestesia de senso crítico. O amigo ali na mesa sabe perfeitamente do meu pendor para ser malvada, e que nessa malvadeza talvez resida, impávido, meu maior talento. Mas quando eu inventei A Lábia, tomei como missão (ó grandiloquência) fazer você, que me lê, ter vontade de ler. Você pode odiar o livro que eu enchi dos mesmos surrados adjetivos, e ter certeza, como meu taciturno amigo, que eu sou uma tola deslumbrada, mas pra isso, camarada, você teve que ler, e se você leu, já me dou soberanamente por satisfeita.
O arroubo selvagem do grande encantamento tem, sim, algo de tolo. Mas assumo o risco e vou continuar aqui falando dos meus espantos. Prometo estudar o dicionário de sinônimos e o de rimas, o de expressões idiomáticas e o Tesouro da Fraseologia, para aprender a calibrar melhor minhas ênfases. Mas eu quero a sorte da empolgação, contra o que há de blasé em pensar demais, em ser crítico demais, em dissecar demais. Pensar muito levou a humanidade à vacina contra o sarampo e à Odisseia, mas também levou à Tesla e ao jogo do tigrinho. No perfil do instagram
(baita curadoria de poemas, recomendo, sigam), achei esse aqui outro dia, de uma poeta chamada Mary Oliver, com tradução de Tomás Sottomayor:Intruções para viver uma vida:
Presta atenção.
Espanta-te.
Fala disso.
Ao amigo, que ali me soou amargo como a décima (ou décima-quarta) cerveja safadamente quente digo que continue puxando minha metafórica orelha deslumbrada. Repito e repetirei: esses textinhos não são resenhas. São dicas de leitura pra quem se perde na hora de escolher o livro, com a firme torcida de que alguém acabe se achando. A mim me cabe indicar bons livros que deem vontade de fazer mais um leitor.
Nest’A Lábia, portanto, em que, graças ao coração que não vibra do meu amigo querido, me dei conta do meu estilo exaltatório, vão livros de não ficção, que estavam aqui guardados para uma edição que eu pretendia ser “sobre o real”. Como é mais fácil conter o deslumbramento em livros de não ficção (impossível usar o adjetivo “lindo”, por exemplo, num livro sobre o Elon Musk, por mais bem feita e cuidadosa que seja a pesquisa), indico aqui livros, digamos, notáveis, escritos com graça e talento — além do meu auto exercício de fazer dicas com sobriedade e sensatez, procurando camuflar em adjetivos até então inéditos meu encantamento renovado com esses sustos que a literatura me causa, porque ela me causa, e quando isso acontece que lindo é, que maravilhoso, que sensacional.
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cardápio da semana
o mais mais
Uma HQ que é um ensaio que é uma HQ
A rosa mais vermelha desabrocha, Liv Strömquist
Tradução Kristin Lie Garrubo
Companhia das Letras / 176 pp
Se todo mundo, do pensador mais relevante ao poeta mais rastaquera, já deu seus dois tostões sobre o nobilíssimo sentimento que faz as pessoas cometerem a insensatez de botar o Estado e a Igreja no meio, como dizia o Oscar Wilde, a Liv Strömquist foi lá e meteu tudo nessa HQ que tem um formato como eu nunca tinha visto: esse livro, e todos os outros dela, são ensaios em HQ, com rigor de pesquisa séria e tranquilidade de divulgação científica. Nos traços mezzo delicados, mezzo irônicos, desfilam Sócrates, a mitologia grega, Kierkegaard, os smurfs, Simone Weil, Simone de Beauvoir, Lorde Byron, Star Wars e, claro, Bauman e e uma baita turma posta pra conversar sobre as alegrias e as agruras do amor. Engraçado e inteligente, deixa a gente assim, mais engraçado e inteligente.
passou batido
Uma pérola em que quase ninguém prestou atenção
38 estrelas, Josefina Licitra
Tradução Elisa Menezes
Relicário / 228 pp
Numa entrevista com o então presidente Pepe Mujica, a jornalista Josefina Licitra ouve, pela primeira, a história espetacular da chamada Operação Estrela, a fuga bem-sucedida de 38 presas políticas, proeza do Movimento de Libertação Nacional/ Tupamaros, em que Mujica e sua companheira, Lucia Topolansky, militavam na época. Quem dá notícia à jornalista da fuga é a própria Lucia, que se espanta com o fato de essa não ser uma história conhecida, estudada ou sequer mencionada entre os diversos entrevistados dela sobre os Tupamaros. Como a história de um êxito notável como esse se perdeu no tempo? Quem são e onde estão essas 38 mulheres, que protagonizaram a maior fuga coletiva feminina do mundo? Licitra então começa uma reportagem para reconstruir essa história e, além daquela onda investigativa de que a gente gosta, o livro ainda tem preciosas reflexões sobre a construção da memória coletiva, dos critérios que uma sociedade usa para preservar suas histórias e ainda uma belíssima história sobre o feminismo na América Latina.
passou batido II
Para uma discussão fundamental sobre o feminismo no século 21
Amanhã o sexo será bom novamente, Katherine Angel
tradução Rita Paschoalim
Bazar do Tempo / 144 pp
O #metoo inegavelmente foi uma revolução que instaurou uma nova régua para medir desde os modos de organização mais básicos do cotidiano, até os vínculos mais íntimos entre as pessoas. Este livro olha para essa revolução, recusando a facilidade com que nós aceitamos a questão do consentimento, avaliando como as mulheres acabam sendo responsabilizadas ainda uma vez quando exigimos delas uma clareza que, ao fim e ao cabo, ninguém tem. Pensando com muita precisão a questão da liberdade, do desejo, do autoconhecimento, da imaginação feminina e, de um modo muito geral, da nossa vida contemporânea, é um livro certeiro e muitíssimo direto ao ponto. Pensar o sexo dentro da esfera do poder, aceitando a necessária desiguldade em qualquer relação, nos obriga a um exercício renovado praticamente cotidiano, mas que, na sua dinâmica, nos livra de amarras — as históricas e as adquiridas.
Duas pequenas observações ordinárias: a diagramação aparentemente deu uma erradinha, e as letras são pequenas como a visibilidade do desejo feminino. O livro tá com um preço excelente no site da editora, link aí no título.
Admirável mundo novo
Aqueles livros que fazem as distopias do século 20 parecem Turma da Mônica
Limite de carateres: como Elon Musk destruiu o twitter, Kate Conger e Ryan Mac
Tradução Bruno Mattos, Christian Schwartz, Marcela Lanius e Mariana Delfini
Todavia / 488 pp
O que dizer de um livro-reportagem de quase 500 páginas sobre um dos personagens mais nefastos da nossa pobre vida global contemporânea? Primeiro, que eu não dei conta de ler inteiro, porque a reportagem é tão obsessiva que vai dando um mal-estar de saber demais, sobretudo considerando a relevância incontornável de Musk no desastroso e destruidor governo Trump. Mas me permiti dar essa roubadinha porque a dupla de repórteres de tecnologia do New York Times esteve no último fim de semana no festival serrote, no IMS de São Paulo, e vê-los contar o processo de investigação e escrita do livro, as consequências que enfrentam, e provavelmente o que eles enfrentarão é de fazer ruborizar o jornalismo brasileiro, tantas vezes capenga em trazer à tona o sórdido jogo de poder e dinheiro que rege o mundo hoje. A história da compra do Twitter, central no livro, ganha ainda mais relevância com os últimos acontecimentos, e esse thriller político tão bem contado diz muito sobre como chegamos até aqui e provavelmente sobre o futuro distópico que, enfim, já começou.
Falando em sociedade da informação
Para quem vê aventura na história dos livros
Índice, uma história do. Dennis Duncan
Tradução Flávia Costa Neves Machado
Fósforo / 328 pp
Perfeito para apaixonados por livros, com uma erudição meio devastadora para o ego de curiosos que acham que compreendem tudo que envolve os livros e a leitura, este livro é um parque de diversões para quem gosta de pensar o objeto livro. A partir desse dispositivo tecnológico que hoje parece óbvio, o índice, o autor faz uma história do livro desde os manuscritos medievais até os mecanismos mais modernos de indexação digital. Para contar essa história, ele convoca de Santo Agostinho a Virginia Woolf, de Platão a Vladimir Nabokov, e conta, num texto que nem parece escrito por um pesquisador tão sério, como a Humanidade foi inventando meios de organizar o infinito conhecimento acumulado ao longo dos séculos. Obviamente é um deleite para nerds, é verdade, mas também um sobrevoo divertido para deslumbrados como eu pela capacidade do homem de pensar o mundo, e pensar sobre esse pensamento sobre o mundo.
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Antes de acabar:
Não costumo dar serviços por aqui, mas esse merece a minha mais deslavada exaltação. No próximo fim de semana, nos dias 3 e 4 de maio, vai acontecer a 1a Feira do livro da Rocha, uma brava iniciativa do pessoal da
. A rua Rocha, no Bixiga, é certamente dos lugares mais legais de São Paulo, e eles montaram uma programação intensa para os dois dias, com conversas, música, várias editoras, comidas, bares e alegria, que, juro, é a especialidade da casa. Procurem sabem, não percam, estaremos lá.Se acaso você ficou preocupado com a minha súbita sobriedade, não fique. Jamais deixarei de lado a exaltação, porque ela está no meu DNA como rir de mim mesma, zombar dos amigos e acreditar que a ênfase alegre é o melhor jeito de andar no mundo. Semana que vem prometo um’A Lábia mais ficcional e exaltatória, porque, vocês sabem, a alegria é a prova nos nove e o espanto é o que nos move.
Servindo bem para servir sempre, botei links em todos os títulos dos livros de que eu falo aqui. Você jamais encontrará um link da Amazon: são todos caminhos para as editoras que fazem esses livros incríveis. Claro que você pode comprar na livraria mais perto da sua casa, compre livros de quem ama os livros, sempre. Se for comprar na Amazon, paciência, entendo, mas pelo menos faça isso com culpa. Pode ser uma militância nanica, mas é a minha militância.
Estou lendo o terceiro livro indicado por você e já com o quarto na fila (o colibri me esperando). Depois de um ano de pouca leitura, sua news me despertou de volta o encantamento pelos livros. Maravilhosamente bom!!! (Pior que uma são três exclamações juntas hehe)
“Ainda que levemente combalida pela denúncia irreprochável do meu parco vocabulário” KKKKKKKKKK ai, Ana, és gênia. Texto excepcional. E não, não conheço, mas sim, o ad hominem funciona: um chato :x continue com as dicas lindas e maravilhosas.