A Lábia 58_ Tédio
Eu quero é tocar fogo nesse apartamento.
Para quem foi criança num tempo em que a TV dedicava umas poucas horas diárias à programação infantil e os smartphones eram dispositivos fantasiosos vislumbrados apenas no futuro distópico de Os Jetsons, havia um sentimento, ou uma emoção, sub-reptícia e dominatrix, mansamente desesperadora, enervante e inequívoca: o tédio. Morno como água vigiada que não ferve nunca, monótono como o zumbido do inseto preso que cabeceia na janela, arrastado como chinelos de encerar, pesado como bigorna de desenho animado, o tédio adentra mansamente as tardes, se alastra pelas veias, suga até a última gota do gosto de viver.
Ainda que eu guarde alguma empatia com essa emoção miseravelmente adolescente, carrego como uma das mais preciosas heranças da minha mãe — e foram muitas — a repulsa intelectual que ela tinha pelo tédio, desmerecendo sua existência moral, legando-a aos fracos de espírito, aos franzinos do sentimento: “só sente tédio quem não tem vida interior”, postulava, virando as costas e indo pegar seu livro, quando a gente derretia de nada pra fazer nas infinitas férias escolares ou nos domingos pré Trapalhões. Talvez por sempre ter trabalhado devotamente, minha mãe glorificava as parcas horas de descanso, e não só isso: ela glorificava as horas de silêncio, de contemplação, de vazio existencial, de solidão.
Os momentos de vazio, em que o horizonte é um quadro branco e podemos enxergar ao longe bolas de feno rolando ao vento, são capazes de suscitar ideias terríveis, é verdade, mas neste instante eu, que sempre achei tão simpático o ditado “Cabeça vazia oficina do demônio” estou prestes a mudar de ideia e achar que ele é mais uma exaltação à nossa triste época de desesperada produtividade. A cabeça vazia, pois, devia ser oficina de escrita, de marcenaria, de pensamento, de cinema. Deixemos o demônio e suas ideias duvidosas justamente para os momentos de ocupação insalubre, que é quando o demônio pode ser de fato útil.
Mas não podemos negar: o tédio, de fato, é combustível para inesperadas aventuras. Não à toa, duas das mais maravilhosas histórias infantis partem exatamente daí, de uma tarde de tédio infernal. As primeiras linhas de Alice no país das maravilhas encontram nossa heroína bufando por não ter nada que fazer, esgotados todos os parcos recursos disponíveis para uma menina naquela época, naquele lugar. Quem a desperta da modorra sonolenta é o coelho, que pula no buraco e o resto é história. Do mesmo modo, Narizinho, nos primeiros parágrafos de suas Reinações, dorme com a barriga cheia da comida de Tia Nastácia à beira do ribeirão das Águas Claras. Nos dois casos, vejam, é algo do efeito quase narcótico do tédio que leva as duas a inimagináveis aventuras.
O tédio, esse motor da imaginação. Não o tédio prostrado de Meu ano de descanso e relaxamento (que eu adoro, mas vai entrar em outra A Lábia), não o tédio existencial e dolorido de O estrangeiro, e nem o tédio privilegiado e aborrecido de Memórias póstumas de Brás Cubas. Mas o confort tédio, o tédio cozy, o tédio que cai como uma luva num dia de chuva, o tédio gato manso enroscado, o tédio necessário da deliciosa falta do que fazer, que, por umas breves e felizardas horas, nos lembra que é bom parar, que um livro é toda a aventura de que precisamos, e que parar é fundamental para continuar melhor. Minha mãe sempre tinha razão: só sente tédio quem não tem vida interior.
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cardápio da semana
o mais mais
Um preferido da semana, aquele que dá pra indicar para todo mundo
Mac e seu contratempo, Enrique Vila Matas
Tradução Josely Vianna Baptista
Companhia das Letras, 288 pp
Se cabeça vazia é oficina do demônio, a cabeça vazia de Mac, um aposentado esmagado pelo tédio de seus dias vazios, é uma fábrica, uma usina, um complexo industrial para o demônio que é o Enrique Vila-Matas. Cansado de arrastar os dias entre a sua obsessão pelo horóscopo e caminhadas rabugentas por seu bairro em Barcelona, Mac inventa um projeto aparentemente inofensivo, mas ligeiramente canalha: reescrever o romance de sucesso de um vizinho escritor, pelo qual ele não nutre nenhuma simpatia. Se você já leu algum livro do Vila-Matas, deve imaginar que a partir daí leremos um furacão de citações, cenas, referências, e que o livro funciona como uma espécie de catálogo que se desdobra em mil outras referências. Um romance que é tipo um esquema de pirâmide de coisas maravilhosas que, para alguém com fome de coisas inteligentes, dispara uns gatilhos importantes. Mas eu queria chamar atenção para o título do livro, esse tal contratempo, como se esse tempo de oposição ao tempo absurdo e entediado da vida fosse o espaço para que as coisas lindas e loucas possam nascer. Taí só uma das muitas lições deste livro.
passou batido
Uma pérola em que quase ninguém prestou atenção
Memórias de um empregado, Federigo Tozzi
Tradução Mauricio Santana Dias
Carambaia, 144 pp
Com o sabor inconfundível dos clássicos modernos italianos (humor de Pirandello, aquela pintura do Svevo), esse desconhecido livrinho parece um filme do realismo italiano, em que o diretor tenta pintar com seriedade sua filosofia de vida, mas que não escapa do humor moleque que faz a gente gostar tanto dessa Itália mítica. O protagonista é um jovem perdido e entediado que é obrigado a dar seus pulos para virar adulto, e arruma um emprego numa estação de trem numa cidade longe da sua. Apaixonadíssimo pela noiva, passa a escrever cartas a ela como se fossem um diário, para ocupar os dias vazios com algum pensamento que, de algum jeito, até que se passa por ação. Se tudo é meio mesquinho no cotidiano dele, vai ganhando alguma grandeza justamente por um olhar que, a despeito da vagareza das coisas, briga com o tédio constitutivo — vocês estão vendo como é difícil falar de um livro que, efetivamente, não acontece muita coisa, mas o gênio do Tozzi está justamente nisso, de escrever um livro tão cheio de imagens e impressões enquanto não está acontecendo nada.
Um antídoto
Aqui a prova de que tédio só existe pra quem não tem vida interior.
Vida sortida, Bernardo Ceccantini
Editora 34/ 112 pp
Talvez o tipo de gente que melhor sabe manejar o tédio, ou que mais tenha vida interior, sejam os poetas — e perdoem dizer uma obviedade desse tamanho. Mas é que eu acho assombrosa a capacidade de arrancar sentido da observação dos nadas cotidianos que esse tipo de gente tem. Eu conheci essa capacidade do Bernardo Ceccantini, pasmem, em textos que ele posta no instagram, como quem não quer nada, mas sempre achei absurdo o que uma cabeça bem pensante é capaz de fazer. Nessa reunião de poemas, o espantoso é isso: olhar a rua de dia, olhar uma casa à noite, olhar a cidade de sempre, um prato de comida, o olhar de uma moça enamorada, um sujeito indo pro trabalho e fazer disso um acontecimento memorável, com uma força quase histórica. Os poemas são meio narrativos, porque sempre acontece alguma coisa, mas também contemplativos, e de uma calma resignada com as belezas da vida. Se pro poeta, ao menos esse poeta, não há tédio possível, deixo aqui essa dica como antídoto antitédio: leiam poemas pra aprender a ver, pra arrancar alegria e beleza de onde menos se espera, pra ter vida interior.
Vale a pena indicar de novo
Dica nova é dica de livro que você ainda não leu
Outra novelinha russa, Gonzalo Maier
Tradução Reginaldo Pujol Filho
Dublinense, 96 pp
Emanuel Moraga é provavelmente um dos sujeitos mais desprovidos de charme da América Latina. Aposentado e recém viúvo, toca a vida com melancolia, tédio e saudade da mulher e se aferra com afinco a uma das poucas alegrias da vida: jogar xadrez (acho que foi o Millôr que disse que jogar xadrez aumenta extraordinariamente a nossa capacidade de jogar xadrez). Teimoso como um velho aposentado pode ser, resolve realizar o sonho de ir à União Soviética jogar com os maiores enxadristas do mundo, numa jornada de idiossincrasia e, vá lá, descoberta. Eu amo o título desse livro, porque o autor é chileno. Eu amo o cenário, que é um rescaldo de Guerra Fria rebatida aqui na América Latina. Eu amo um livro cujo herói é um sujeito com problemas de colesterol. E eu amo a ironia de fazer um pastiche com cara de fábula de um livro meio de despedida, como é o A morte de Ivan Ilitch, mas aqui com tanto humor e um debochezinho lírico. E ele ainda é um suspiro, que você devora em qualquer hora de descanso, mas vale demais o passeio.
Jabá do puro amor <3
A Lilian Sais, o Ricardo Terto e o Tarso de Melo são três das pessoas mais legais que o mundo da literatura me apresentou. Generosos, inteligentes e incansáveis, eles não param de criar coisas incríveis para e pela Literatura. Estou participando com mais quatro colegas editores de uma espécie de apresentação final de um dos cursos de formação do Para escrever e é lindo de ver como os alunos crescem e o quanto é importante que essas conversas aconteçam. Pois eles se mexeram para oferecer totalmente de graça esse curso Vidas Extraordinárias, e eu aposto a quantidade de cervejas que eu tomo com os três que só vai sair coisa boa disso. Vão lá olhar, mas vão rápido, porque as inscrições são até dia 15 de julho.
Servindo bem para servir sempre, botei links em todos os títulos dos livros de que eu falo aqui. Você jamais encontrará um link da Amazon: são todos caminhos para as editoras que fazem esses livros incríveis. Claro que você pode comprar na livraria mais perto da sua casa, compre livros de quem ama os livros, sempre. Se for comprar na Amazon, paciência, entendo, mas pelo menos faça isso com culpa. Pode ser uma militância nanica, mas é a minha militância.







Às vezes tediar é preciso, viver não é preciso.
No caso esta A Lábia foi curiosamente lida enquanto esperava a água ferver.