A Lábia 56_Feira
Sempre rindo e sempre cantando.
Mesa, mediação, tenda, bancadas, auditório, palco, lançamento, credencial, equipe, tradução — o curioso léxico de uma festa literária, música para os ouvidos da gente do livro, mistura trabalho com farra, arte com labuta, e, ainda que conhecido e doméstico para quem, como eu, está na estrada livreira há mais de décadas, ainda guarda um mistério gentil de todo um horizonte de possibilidades. Se é divertido e trabalhoso na mesma medida, é porque a beleza vem do trabalho de tanta gente que, entre empolgação e mau humor, otimismo e canseira, dá o sangue para mover quilos de caixas de livros, manobrar maquininhas de débito e crédito, passar horas a fio de pé, e gastar muita, muita lábia de vendedor.
Ainda zonza depois de nove dias de feira, mesmo no silêncio do domingo à noite ainda dá pra ouvir as infinitas conversas, o sorriso dos amigos, a gentileza dos vendedores. Se corro o risco de me lambuzar no mel da pieguice é porque é inevitável celebrar a festa que é uma feira de livro. Por que, afinal, uma feira de livro é tão diferente da Exponoivas, da Festa do Caqui ou do Salão do Automóvel? Ora, porque o que está ali exposto em cada uma das mesas, abertos implorando pela atenção do público em capas e títulos, com suas orelhas abanando ansiosas pelo leitor enamorado, é, afinal, o livro.
Ainda que seja inegável que é um produto como tantos outros, o livro tem algo de mágico, de mítico e, vá lá, sagrado. Num livrinho brilhante e espantosamente didático, o meu querido professor João Adolfo Hansen ajuda a resolver esse enigma com estilo e inteligência, como tudo que ele fazia: “O livro não é um objeto natural, mas artificial, material e simbólico. Como objeto artificial, é mercadoria, produto acabado de vários processos intelectuais, técnicos e industriais; como objeto simbólico, é texto, que pressupõe uma autoria, que o acabou como obra, e leitores, que nunca acabam. Definitivamente acabado sob uma assinatura de autor, continua indefinidamente inacabável nas leituras que, na sociedade contemporânea, ainda pressupõem e reproduzem as normas dos regimes discursivos estabelecidos.”
Pois bem. Uma feira de livro é tão viva e pulsa daquele jeito que só uma feira de livro faz porque é, sim, uma feira comercial, em que o que está no centro é esse objeto artificial, mercadoria. Mas essa mercadoria, enquanto resultado do trabalho de “vários processos intelectuais, técnicos e industriais” traz junto essas pessoas, que aprenderam a fazer disso um ofício que evidentemente está a quilômetros de ser algo lucrativo — e eu fosse disciplinada, eu faria toda um’A Lábia pra provar para vocês que quem trabalha com livro é só porque gosta de livro, e vocês nunca mais reclamariam do preço dos livros no Brasil, mas vamos deixar essa conversa pra outro momento. Daí que a lógica do trabalho com livro não pode prescindir do aspecto simbólico, como diz o Hansen, dessa relação intrínseca e estranha entre objeto e o leitor que, na relação com o autor, se produz como “indefinidamente inacabável”.
O mistério e a maravilha de uma feira de livro vem dessa reunião de gente que acredita na produção de pequenos infinitos, sejam portas, sejam espelhos, mas que de algum modo trazem a possibilidade de ser mais — mais que mercadoria, mais que um objeto simbólico, mas um livro, em todos seus desdobramentos de memória e de imaginação.
Tem uma entrevista do Chico Buarque que diz que o Corcovado já era, claro, uma montanha belíssima, mas que aquele cume levemente inclinado como que pedia a presença dos braços abertos do Cristo Redentor. Acho linda a ideia de que uma maravilha da natureza, como é o perfil da cidade do Rio de Janeiro, precisa de uma construçãozinha humana, cereja do bolo que puxa a perfeição absoluta. São Paulo, claro, desgraçadamente parca de belezas naturais, tem seus dois ou três espaços de respiro, em que o crescimento desordenado e a especulação imobiliária ainda permitem uma nesga de paisagem. E devo dizer que aquela massa de cimento e ferro do Pacaembu, com suas colunas naquele estilão art-déco nazipaulistano de algum jeito mexe com meu coração. O que faltava ali, como o Cristo no Corcovado, é uma feira de livro, alegre, pulsante, com suas tendinhas brancas, o gramado cheio, o chope gelado, repleta de pequenos infinitos se desdobrando.
À guisa de explicação: como confesso, passei os últimos dias saracoteando na quinta edição da Feira do Livro. Fiz umas mediações, ouvi ótimas mesas, comprei livros, recebi meus autores e conversei muito, quase infinitamente com os livros. Os livros que vão aí embaixo não tem lá exatamente um tema, e há repescagens. Escolhi falar deles porque eles são livros inesquecíveis pra mim e, de um jeito ou de outro, encontrei-os lindamente nesses dias — ou os próprios, ou seus autores, e indiquei pras pessoas, e lembrei de como gosto deles. Achei que era uma boa hora de eles voltarem pra cá. Vão perdoando — os livros são infinitos, mas meus dias não.
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cardápio da semana
o mais mais
Um preferido da semana, aquele que dá pra indicar para todo mundo
A melhor época da nossa vida, Antonio Scurati
tradução Federico Carotti
Manjuba/ 308 pp
Um dos livros que eu mais gosto no mundo é o Léxico familiar, da Natalia Ginzburg, que certamente está entre as maiores escritoras do século 20. Ela viveu em Turim, no epicentro da geração mais interessante para a história dos livros (e do pensamento, e da história). Casada com Leone Ginzburg, amiga do Cesare Pavese, mãe do Carlo Ginzburg trabalhou na mitológica Einaudi e escreveu, além do Léxico, livros que misturam memória, ficção, ensaios, sempre no limite entre a ternura mais derramada da vida privada e a consciência política do seu tempo. A Natalia é tão absurda que é dessas autoras que dão saudade. Eu tenho saudade da Natalia como tenho da amiga amada que me apresentou a ela, e que morreu muito antes do que deveria.
Esse A melhor época da nossa vida, do Antonio Scurati foi uma solução e um susto para a minha saudade. É um ensaio escrito magistralmente sobre o Leone Ginzburg, que parte do momento decisivo na vida dele, quando se recusa a jurar fidelidade a Mussolini, perde o emprego de professor na universidade e enfrenta, com uma dignidade inabalável, todas as consequências do fascismo. Scurati faz uma investigação bonita demais das famílias que desembocaram nessa história, pintando uma Itália que é o mundo inteiro. A calma, a sabedoria, a grandeza, mas também o encanto, a ternura, a paixão, são desconcertantes pra todos nós hoje, que temos que driblar com uma imprensa manca e aviltantemente isentona a ameaça sempre renovada da extrema-direita. Ginzburg foi um intelectual imenso, rigoroso, erudito. Empenhou cada minuto dos seus parcos anos de trabalho em liberdade para deixar um legado incalculável não só para a cultura italiana, mas para o mundo. Havia uma consciência aguda de que, enquanto o nazismo alemão e o fascismo italiano derramavam sangue e violência na vida das pessoas, o certo a fazer era dizer não, recusar a barbárie e inventar um jeito de estar com seus mortos. Num projeto editorial memorável no qual editava de Dante a Orlando Furioso, Ginzburg reafirma que a herança deixada dos homens pelos homens através das gerações é o que chamamos de humanidade, porque inventa um vínculo pulsante de vida, paixão, morte. O que se aprende é um sentimento de amizade com o leitor desconhecido — que talvez nem exista ainda. Diz Scurati: “Esse patético, grandioso amor, não tanto pelo próximo quanto pela vida estrangeira, distante, especialmente pela vida por vir. O presente tomando entre dois fogos, o passado e o futuro. Uma manobra de pinça”. É trágico, no sentido da grandiosidade. E é de um otimismo absurdo.
passou batido I
Uma pérola em que quase ninguém prestou atenção
Murambi, o livro das ossadas, Boubacar Boris Diop
Tradução Monica Stahel
Carambaia, 224 pp
É inacreditável que o mundo não tenha acabado em 1994 quando em cem dias um genocídio matou quase um milhão de pessoas em Ruanda. A rixa histórica entre duas etnias rivais, os tútsis e os hutus, postas no mesmo território por uma colonização violenta e arbitrária, fez de Ruanda um território de disputa sangrenta. Pra mim, para entender o tamanho disso, só mergulhando num livro como esse. Quatro anos depois do genocídio, um programa cultural convidou escritores africanos de vários países para visitar os escombros do país: valas comuns, escolas que funcionaram de refúgio e de palco de massacres, estradas interditadas, a herança material da brutalidade — era o cenário que visitavam para, nem digo entender, mas pelo menos vislumbrar o que foi essa tragédia. O escritor senegalês Boubacar Diop era um deles e escreveu esse livro magistral, que a Toni Morrison chamou de milagre. Nele um professor ruandês que morava há anos fora do país, filho de mãe tútsi e pai hútu, volta a Ruanda para entender o que aconteceu com sua família durante o massacre. Isso era uma questão: quem matou, quem morreu. É muito duro, porque mistura culpa e raiva e luto e ódio e injustiça e esse caldeirão todo. E Diop monta o livro conduzido por Cornelius, o protagonista, mas faz uma colagem muito impressionante do cenário que encontrou por lá. É uma discussão sobre pátria, sobre identidade, mas sobretudo sobre humanidade. E dá na gente uma sensação de que quando chegamos num ponto desses estamos, sim, perdidos. Mas a arte é capaz de elaborar isso e transformar numa coisa de algum jeito bonita (como também são os livros da Scholastique Mukasonga publicados pela Nós, tudo um absurdo de coisas bonitas arrancadas da barbárie). Acho que está nessa alquimia o milagre que a Toni Morrson viu.
passou batido 2
Outra pérola em que quase ninguém prestou atenção
Seul, São Paulo, Gabriel Mamani Magne
Tradução Bruno Cobalchini Mattos
Todavia/ 152 pp
Espécie de Educação sentimental boliviano, o livro é a história de dois primos adolescentes que crescem se divertindo como podem na rotina meio frívola meio feroz que a adolescência impõe entre hormônios, desejo, obrigação e uns sonhos irrealizáveis. O primo que morou em São Paulo é louco por K-Pop e pelo Corinthians, o outro encontra um amigo mais velho que apresenta uns livros (e o mundo) e eles vão descobrindo meio juntos, meio por conta própria o sexo, as drogas, o capitalismo, a dureza, o afeto, tudo, num cenário de ônibus lotados, empregos precários e um patético serviço militar obrigatório. É tudo muito singelo, como costumam ser as histórias adolescentes, mas tem uma esperteza, uma malandragem naif, um humor que ri das próprias más escolhas que faz um livrinho tão boa companhia, que atravessa as veias da América Latina e mostra que, sim, adolescente é meio tudo igual, mas uns são mais legais que os outros.
são coisas nossas
Um brasileiro realmente bom, pra gente ter algum orgulho nessa vida
Saia da frente do meu sol, Felipe Charbel
Autêntica Contemporânea, 168 pp
O Felipe (o narrador?) tinha um tio, um sujeito avulso, de vida oblíqua, que habitava com silêncio e fumaça de cigarro os quartinhos de empregada da família, na Zona Norte do Rio. Depois da morte dele, pessoa sem herdeiros, ficaram as coisas — fotos, documentos, vestígios. O narrador (o Felipe?) começa uma investigação desse cara misterioso, que guardava escondidas fotos suas, o corpo livre numa praia deserta, ao lado de um homem tão bonito quanto ele. Ou o retrato do baile de carnaval, numa das poucas imagens em que se vislumbra um sorriso. Aí a gente vai conhecendo o tio Ricardo, num cenário de azulejos beges, em meio ao pacto silencioso de uma família barulhenta, tudo descrito num estilo chique demais — porque o livro conta a história nesse tom de fofoca sentimental, de investigação lírica. E como o Felipe escreve bem, como manobra as referências mais altas num texto ao rés do chão. Tem luta de classe e malabarismo narrativo, tem história miúda e antropologia suburbana, tudo para pintar, pelas mãos do tio Ricardo, o retrato de um Brasil feito de afeto e rancor, carnaval e miséria, expansão e mistério. Bonito demais.
são nossas coisas
Outro Um brasileiro realmente bom, pra gente ter algum orgulho nessa vida
O maior ser humano vivo, Pedro Guerra
Record, 258 pp.
Naquele pique de Meu ano de descanso e relaxamento (desequilíbrio mental, sociedade do cansaço e uma quantidade incalculável de drogas, ilícitas ou não), esse livro é uma irônica aventura contemporânea do homo sapiens paulistano. Ele se passa todo em um raio de poucos quarteirões do condado da Faria Lima e antes que você saia correndo devo dizer: tem sarcasmo e o sarcasmo nos salvará. Na primeira metade, o narrador é um advogado almofadinha hiperfocado no sucesso na carreira, e, meio que babaca gentil, cumpre as regras com garbo e precisão, a despeito do seu corpo que se desintegra em doses cavalares de café e drogas. Pinta o universo das corporações com uma inteligência rara, e o seu imenso talento de construir as verossimilhanças nos dá agonias tão lancinantes quanto a úlcera que o protagonista cultiva com o esmero de um jardineiro. Bom, ele surta, como não poderia deixar de ser (e que cena!) e aí é um turning point. Depois do surto — ou, como se diz em português moderno, burn out — o livro dá uma guinada maravilhosa e o que era ironia vira sarcasmo. O sujeito alquebrado resolve faturar com seu trauma (acontece muito) e cria um standup que funciona como um culto a uma filosofia de vida chamada Medianismo, numa paradoxal exaltação à vida medíocre. É engraçado, é rápido, é sexy (tem poucos e sutis momentos, mas é) e é muito inteligente. E é também muito bem escrito, porque a linguagem acompanha os ritmos em que o narrador se move — rápida e meio neurótica nos surtos de produtividade, racional e allegro andante enquanto ele constrói essa espécie de religião para chamar de sua. Ainda que o narrador tenha um afastamento na medida, o que deixa tudo com cara de romance de formação do século 19 (seria Nilo meio que um Julien Sorel desgraçado da cabeça?), dá uma alegria ler um livro de hoje, para hoje, naqueles momentos em que a gente vê que mesmo um romance com um pressuposto maluco é, sim, um tratado sociológico. Literatura é bom demais.
Dois destaques: 1) o protagonista chama Nilo mas o nome dele só aparece na segunda parte, depois do surto, como se o sujeito ali na corrida pelo sucesso não tivesse identidade, fosse só uma máscara farialimer 2) o único personagem que o acompanha nas duas partes é Reggie, um rico que sabe arrancar alegria do tédio. Os dois têm cenas memoráveis de fanfarronice desbragada que lembram o inesquecível Ega, de Os Maias (alá o século 19), personagem que talvez seja o maior monumento literário à amizade.
Servindo bem para servir sempre, botei links em todos os títulos dos livros de que eu falo aqui. Você jamais encontrará um link da Amazon: são todos caminhos para as editoras que fazem esses livros incríveis. Claro que você pode comprar na livraria mais perto da sua casa, compre livros de quem ama os livros, sempre. Se for comprar na Amazon, paciência, entendo, mas pelo menos faça isso com culpa. Pode ser uma militância nanica, mas é a minha militância.







Delícia sentir tua paixão pelos livros. Não é festa do Caqui :)
Acho que o que faz dessa feira algo tão especial é o foco estar nesse conteúdo, seja nas conversas no palco ou nas bancas, essa proximidade entre editores e leitores, esse tempo para apresentações das propostas. Li muitos comentários com críticas "não tem bons descontos como as outras" (e, bem, realmente a gente precisa também educar as pessoas do porque as coisas custam o que custam), e por isso não iriam à Feira. É gente acostumada a pensar no livro como consumo (e isso dá toda outra conversa); como se sair da Feira com sacolas e sacolas fosse a única satisfação possível, e não ouvir um bom debate que dê vontade de sair dali e procurar saber mais sobre o assunto - e vendas são consequência disso.