A Lábia 42__ Caça-palavra
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos.
“A vingança é um prato que se come frio” é um ditado um tanto torto, porque nunca entendi como poderia ser saboroso isso de se vingar — refastelar-se com a queda de um suposto inimigo, lesar alguém que nos lesou, castigo no contrapé desenhando um carma caótico de ri-melhor-quem-ri-por-último. Apesar do Tarantino, do Lupicínio e dos livros de vingança na minha estante de favoritos, sempre fui mais do deixa-disso, e não é por virtude, mas por preguiça. Se volto a evocar essa palavrinha é porque passei o domingo cozinhando pra pessoas amadas, e falamos sobre como em comida é feita de afeto e alegria. E seja, afinal, a vingança um prato ou não, Bolsonaro já não está podendo comê-lo.
Entre memes e notícias, acompanhamos todos o jardim da infância de Bolsonaro na cadeia. É uma cadeia mansa e amigável, doce como leite condensado perto do que próprio defendia para “bandidos”, mas ainda assim cadeia, o que pra mim basta. Mas, com um deleite de Lady MacBeth, ouvi com atenção alegrinha o excruciante episódio de Medo e delírio em Brasília que conta em pormenores o estado de saúde, se é que pode ser chamado assim, do dito cujo. E o que nos refestela, o nosso castigo no contrapé, é que a prisão, como o Maktub do Paulo Coelho, está dentro dele. Eu adoraria poupá-los, mas não posso deixar de citar que a expressão “vômito fecal” faz uma trajetória premonitória da metáfora à literalidade. Mas deixa disso.
“Empenhada na luta contra o sedentarismo cognitivo.” Meio piada, meio slogam, foi assim que eu defini essas cartinhas que comecei há onze meses sem plano, sem projeto, sem publicidade e, principalmente, sem ter a menor ideia de onde isso ia parar. A frase tem seu laivo de prepotência, é verdade, mas uma prepotência inofensiva de quem trabalha com livro e vive metade da vida tentando convencer você, potencial leitor, a pegar um livro e ler. Na primeira das Lábias, n’A Lábia inaugural, eu já citava o famigerado quando, perguntando porque estava desmontando um dos maiores programas governamentais de compra livro do mundo, ele respondeu que “os livros hoje são um amontoado de muita coisa escrita”. Tomei como uma ofensa pessoal, por óbvio, pois, como diz minha avó, “eu não sou de plástico”. Mas ali, desprezando os livros, ele só reforçava o desprezo amplo e irrestrito por tudo que é criação, inteligência, cultura, imaginário, reflexão — ou seja, tudo aquilo que, junto com o telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor, nos fazem humanos.
Vocês podem contestar, dizendo que a leitura pela leitura é supervalorizada, e tem muito idiota letrado por aí. Mas eu nunca vou deixar de me espantar com a militância antiintelectual, a exaltação da ignorância, o elogio da burrice. Isso resulta, como vocês sabem muito bem, em gente que reza pra pneu, que leva a sério a mamadeira de piroca, a teoria dos sete clones do Lula, a dos fetos adoçantes de Pepsi do Olavo de Carvalho e o Olavo de Carvalho. É tudo ridículo, não é mesmo? Sim, ridículo e perigoso, ridículo e assustador, ridículo e o retrato do horror. Escapamos por enquanto, mas estejamos atentos.
Pois bem. Nós, que somos pacifistas badauê, que demoramos para tomar as ruas, que jamais evocaríamos o verbo “metralhar” para falar de rivais políticos, ainda temos o riso — ridicularizar vem de rir, de riso pequeno, mesquinho (pelo menos até o Caetano Galindo me provar o contrário). Eu nunca vou esquecer deles zombando da falta de ar dos nossos mortos, mas nossa arma é espezinhar a burrice e a truculência com a superioridade de quem é capaz de enxergar como é patética a potência deles, como eles erram sistematicamente, como deixam rastros da sua lambança, e como são frágeis a pose de mau, a força do mito, a mentira em que eles acreditaram.
Hoje, pensei em comentar a excelente lista dos livros aprovados na política de remição da pena pela leitura, excelente mesmo, lista da qual certamente o ex-presidente vai passar longe, sem diminuir um único dia da sua pena, para a sorte de todos nós. Mas não estou com esse espírito esportivo, então indico livros em que ditadores, ou ex-ditadores, são retratados com humilhação e escárnio, no esplendor magnífico do seu ridículo, que é pra gente prestar bem atenção e aprender a passar longe deles. Depois que passa, dá até pra se divertir um pouco.
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cardápio da semana
o mais mais
O preferido da semana, um pra indicar pra todo mundo.
O senhor presidente, Miguel Ángel Asturias
Tradução Luis Reyes Gil
Mudaréu / 360 pp
Sempre meio espantoso ver a fórmula atribuída a Tolstói, aquela de “quer ser universal, comece pintando sua aldeia”, aplicada em prática. O Asturias, que ganhou o prêmio Nobel pintando sua Guatemala, mirou no deboche com o próprio país e acertou logo o coletivo das ditaduras latino-americanas. Aqui, um país sem nome, sombrio, tenebroso, assolado pela estupidez mesquinha de um ditador é descrito em toda crueldade e burrice e é o retrato de uma geografia e de uma época. O ditador é, claro, um sujeito que, por trás da pose de ferro do desmando arbitrário, é um fraco que sucumbe aos bajuladores mais dissimulados, mas que nessa potência armada massacra vidas e impõe o medo, o medo que está descrito como poucas vezes se vê na literatura. E é sempre impressionante ver como a literatura exuberante, cheia de nuances, e camadas, e polifonias, é capaz de descer ao horror. A destreza do livro está também em ser capaz de falar de vida, de amor e de delicadezas em meio ao horror, como pra lembrar que a vida insiste, que a alegria é possível, e que na luta está a resistência.
passou batido
Uma pérola em que quase ninguém prestou atenção
A tirania das moscas, Elaine Villar Madruga
Tradução Carla Fortino
Instante / 224 pp
Que livro louco, fabular, meio alucinatório. Narrado em capítulos alternados por três irmãos dominados por um pai autoritário que, ao perder o poder no Estado, decide implantar uma ditadura familiar, e uma mãe que usa uma psicanálise deturpada para cercar os filhos na única maternidade de que ela é capaz, cria um clima de fantástico e horror, em que o sarcasmo e a sátira se materializam nas imagens impressionantes, que podem ser hilárias, mas não deixam de ser agressivas. Faz calor o tempo todo, os três irmãos são personagens inesquecíveis (todos completamente malucos, mas que vão nos deixando meio apaixonados), é um livro estranho e incômodo, que vai ensinando que a sátira é mesmo a forma de resistir. Livro vingança, livro acerto de contas, personifica muito isso de que rir é o melhor remédio. Muito bem escrito mas, principalmente, muito bem imaginado.
são nossas coisas
Um brasileiro realmente bom, pra gente ter algum orgulho nessa vida
O presidente pornô, Bruna Kalil Othero
Companhia das Letras / 248 pp
Constrangedora e premonitória, inteligente e animadinha, essa pornochanchada política conta a história de Bráulio Garrazazuis Bestianelli, eleito presidente de um país chamado Plasil, com suas pequenas taras e grandes surtos. Bráulio é patético, burro, tarado do jeito errado e protagoniza episódios de vergonha alheia e consciência própria, porque essa fábula arrancada da nossa história republicana ajuda a fazer um triste inventário do que nós somos como país. Eu li durante o governo de vocês-sabem-quem e me lembro de pensar “será que a gente ainda vai disso?”. O tempo veio dizer que sim, rimos disso, como no capítulo em que o presidente se diverte intelectualmente… preenchendo caça-palavras. Dei boas risadas, quando tínhamos poucos motivos pra rir, e é sempre divertido ver que a realidade brasileira insiste em ultrapassar a ficção — com todo o respeito ao livro que, enfim, fez sua parte.
Servindo bem para servir sempre, botei links em todos os títulos dos livros de que eu falo aqui. Você jamais encontrará um link da Amazon: são todos caminhos para as editoras que fazem esses livros incríveis. Claro que você pode comprar na livraria mais perto da sua casa, compre livros de quem ama os livros, sempre. Se for comprar na Amazon, paciência, entendo, mas pelo menos faça isso com culpa. Pode ser uma militância nanica, mas é a minha militância.
E digo mais: Pessoal em São Paulo fez uma iniciativa maravilhosa de juntar um coletivo e montar o Mapa das Livrarias de Rua de São Paulo. É lindo, coletivo, saudável pra fauna e pra flora editorial. Vá a livrarias, compre livros de livreiros.





Ai, que honra cair n'A Lábia 🔥 é mesmo muito gostoso ridicularizar nossos algozes, me sentindo muitíssimo bem acompanhada com essas indicações de peso!
PLASIL, hahahaha, que maravilha.