A Lábia 41__Beleza
Meu amor é um tigre de papel
Aparentemente, nasci com um dom qualquer que faz com que minha tolerância à leitura seja elástica e resistente. Se canso de Tolstói, descanso numa Bechdel. Se dá gastura das latinoamericanas, recupero as forças no Bandeira. E assim, de poesia contemporânea a HQ, de crônica dos anos 1960 a Confúcio, de Millôr a romance de formação, de Nina Horta a Dostoiévski, entre um inédito inaudito e um velho conhecido que eu sei de cor, vou descansando a vista e o senso crítico, e dá pra seguir leitora relativamente onívora, e arrancar divertimento até em livro ruim. Mas nem só de mar calmo vive o leitor, e às vezes o trabalho dá aquela forçada de barra. Minha miopia, geralmente mansa como um gato velho, ataca, e de repente me vejo fugindo dos livros, de qualquer um, em séries duvidosas, podcasts curiosos, longas sessões de música e cozinhando pratos suficientes para alimentar um adolescente de tamanho razoável por duas semanas.
O motivo dessa provisória desilusão com a leitura é uma canseira. Veja bem, canseira é diferente de cansaço. Longe de mim parecer aqui um desenho do Pedro Vinício, um menino tão novo com aquele humor de ó-vida-sou-de-exaustas. A vida exagera, e tem mercado, cidade, trânsito, filho, ressaca, exercícios, saúde, gente — como é que faz pra conciliar leitura? Como fazer pra não vir tudo embrulhado no mesmo pacote?
Vejam bem: eu, grande entusiasta da literatura contemporânea, edito literatura contemporânea. Por isso mesmo, recebo uma exorbitância de textos inéditos. Eu não sei se vocês sabem, mas os livros não nascem prontos. A minha função é olhar pra eles, entender onde tem livro, e começar um trabalho colaborativo de parideira, espécie de doula literária: tá tudo lá, mas precisa de alguém pra dizer “respira, amigo, respira que vai sair”. Não preciso dizer o tanto que eu gosto disso, que é divertido, surpreendente e, de algum jeito, mágico. Mas como tudo tem dois lados, também chegam livros com apêndices de irritação latente. E o mais irritante é que seguem modismos, ou partem de lugares gastos, e a única coisa a fazer é pensar porque diabos estamos insistindo em caminhos tão equivocados. Para tentar uma categorização volúvel e certamente volúvel:
. Livros cuja sinopse parte da própria experiência de um acidente, da maternidade, da separação, de uma viagem. Claro que os livros partem da própria experiência, mas se a própria experiência é tudo que você tem pra dizer de bom disso, amigo, tenha outras experiências.
. Protagonistas cujos nomes são Peggy, Adam, Claire ou Dave. Amiga, mas o que é isso, nós duas sabemos que você mora no Itaim. Tenho notícia de um livro de 500 páginas sobre uma saga de vampiros na Itália medieval (sim) baseada na história da família da autora, que mora na Praça Sanz Peña.
. Dimensões. Sou burríssima pra esse conceito, e qualquer livro que exija uma introdução ao pensamento de Neil deGrasse Tyson me desperta uma preguiça imemorial.
. A síndrome do best-seller, tão bem esmiuçada nesse texto gênio, austero e radical do Joca.
Daí a canseira. Normal, né? Quando entro nesse mood, o tédio da existência torna-se terrivelmente espantoso, e eu me pergunto se ler qualquer coisa é melhor do que não ler nada — o que pra uma editora não é uma dúvida existencial banal. Será que não é melhor chafurdar em série de true crime? Sair pra beber? Macramê? Enfim, dúvidas. Mas o que faz a gente seguir na convicção inabalável é que a leitura, os livros, a literatura insiste em enfiar na nossa cara toda sorte de milagres provindeciais: os livros lindos.
Os livros lindos, em geral, são curtos (mas isso não é primordial), a obra-prima de seus autores, e arrebatam justamente pela medida certeira entre afeição, malandragem, ternura e verdade. Livros lindos comovem, claro, mas dando a piscadinha esperta de quem sabe enganar para quem quer ser enganado. Eles mostram a vida por um ângulo tão óbvio quanto inesperado, e a gente vai passando as linhas entre o sentimento delicioso de trombar com sentimentos velhíssimos conhecidos (“mas isso sou eu! é minha família! é a fulana!”) e o susto dos ignaros, que é quando a gente lê e fica besta de nunca ter pensado naquilo, daquele jeitinho, com aquelas palavras. Os livros lindos, por mais que sejam diferentes entre si, operam uns processos comuns, como fazer a gente não parar de ler nunca, estar profundamente apaixonado pelas personagens, enxergar nela a humanidade que às vezes nos escapa. Eles, sempre com algum humor — talvez não o humor de fazer rir, mas o humor de olhar as coisas com deboche e paixão —, não têm um pingo de medo de tratar do absurdo, e um livro lindo em geral enfrenta a vida miserável, a doença e a morte com uma dignidade de que eu gostaria muito de que fôssemos todos capazes.
Eu queria sempre trazer aqui livros lindos — e já trouxe muitos, e hoje as dicas são só deles. Mas não dá, porque um ingrediente importante dos livros lindos é a raridade. Talvez por esquivar-se de agradar a todos, talvez pela sinceridade do apaixonamento, talvez pela fórmula precisa e variável de saber costurar o céu e o inferno. Quando acontece, é bonito demais.
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(Historinha pro Jards Macalé, meu herói das coisas lindas, que foi embora essa semana.)
Há uns 20 anos, eu emprestava a casa de um amigo e passava dias em Paraty, sozinha, basicamente lendo, pra um trabalho que eu tinha na época. A casa ficava à beira do mar, e barulho de onda combina demais com livro. Às vezes eu ia ler no quiosque da dona Teresa, na praia do Pontal, e tudo era silêncio e mar. Um dia, o quiosque foi invadido por uma simpática horda de adolescentes, violão e alegria. Não fui embora e fiquei ouvindo as conversas e as músicas, até que o jovem líder tocou “Vapor barato”, mas na pegada de reggae aguadinha do Rappa. Todo mundo cantou junto e eu, sempre louca pelo Macalé, achando lindo. Quando terminou, o jovem líder disse: “Vocês sabiam que essa música não é do Rappa?”. Espanto geral. E ele: “Descobri que é de um tiozinho do morro no Rio, tipo Cartola”. Amei, né? Anos depois, depois de um das dezenas de shows do Macalé que eu felizmente vi, acabei numa mesa com o próprio, levada pelo Homerinho, amigo gentil e genial que dividia com o Macalé a maluquice, a gentileza, a ginga e o timbre. O Homerinho falou: “Conta pro Jards aquela história dos meninos na praia”. Meio com vergonha, contei. E o Macalé, olhos arregalados e batendo no peito como o Tarzã, deu o grito: “Mas é a glóóóóóóóoria!”. Viva a glória esplêndida do Macalé.
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cardápio da semana
o mais mais I
Um preferido da semana, aquele que dá pra indicar para todo mundo
Trens rigorosamente vigiados, Bohomil Hrabal
tradução Luís Carlos Cabral
Editora 34 / 128 pp
Tomei um susto quando vi que num livrinho tão pequeno cabia um baita romance de formação, um panorama bem contundente da resistência à ocupação nazista na Tchecoslováquia, com o horror surreal do sururu da Segunda Guerra, e tudo dentro de um retrato inacreditavelmente divertido de um lugarejo que vive em torno de uma estação de trem. O tom é diferente de tudo que se poderia esperar dessa breve (e confusa) sinopse, porque é coloquial, engraçado, meio causo, meio clássico, num texto que vai passeando do susto do terror ao deboche mais deslavado, que é o único jeito de lidar com alguma dignidade com o horror passado. Mas, principalmente, é um livro cheio de acontecimentos, sexy e trágico, histórico e fanfarrão, absurdo e realista, safado e sisudo, porque no fim é um documento sobre o século 20 como a gente deveria guardar — reconhecendo o terror e celebrando um vida insistente, curiosa e humana. É uma delícia como ele passeia, como ele dança entre a fogueira do trágico, num movimento que é o que deveria ser a literatura, porque é um recorte do mundo.
o mais mais II
Outro preferido da semana, aquele que dá pra indicar para todo mundo
Os sorrentinos, Virginia Higa
tradução Sílvia Ornelas
Autêntica Contemporânea, 144 pp.
Um restaurante napolitano numa cidade argentina à beira mar, fundado e gerido por Chiche Vespolini, um brilhante iracundo que faz a família orbitar em torno de si: só nessa frase já tem carradas daquele molho de drama e comédia, que fazem a literatura mais saborosa (e isso não é um xavão, mas um trocadilho). Mas o que é mais impressionante nesse romance assustadoramente de estreia de uma jovem autora argentina é a festa da linguagem. Porque, herdeira confessa do Léxico familiar da minha amadíssima Natalia Ginzburg, ela constrói o imaginário dessa família todo em cima das frases, dos ditos, dos causos da família. O que pode parecer pura sátira e pastelão, se adensa rápido como se adensam, ó o drama, as relações humanas. Entre receitas que fazem enlouquecer de fome (os sorrentinos são um tipo de ravioli redondo inventado pela família e propagado pelo mundo), aquela sensação mansa de que toda família é igual, sendo toda família absolutamente diferente. E no centro, a coragem da imigração, a disposição de produzir vida e sentido, e um amor latente por tudo que é humano, que é criação humana. Eu ri, e ri muito, e aprendi palavras e frases que vou repetir pro resto da minha vida, mas eu também chorei, e me emocionei tanto, e já tenho vontade de comprar uma passagem pra Mar del Plata, mesmo com certeza de que o que existe ali é pura, pura literatura. Se você leu Léxico familiar e ama como eu, corre pra este livro. E se você não leu Léxico familiar, leia Léxico familiar.
passou batido
Uma pérola em que quase ninguém prestou atenção
Fup, Jim Dodge
tradução Melany Laterman
Amarcord, 128 pp.
Já contei aqui que na “minha época”, não tinha esse lance de “young adult”. Quando a gente gabaritava a coleção Vagalume, dava um salto quântico de Um cadáver ouve rádio para o O estrangeiro. Pelo menos foi meu caso lá em casa, há mais de trinta anos. Lembro de percorrer a estante da minha mãe em busca de livros com a lombada fina, numa intuição equivocada & adolescente de que tamanho era documento, até encontrar esse Fup, fininho e satisfatório, com um pato na capa. Fup é a história de um velho bêbado, um jovem gigante e uma pata gorda — mas quanta coisa acontece aí. Narrado de um jeito meio fabular, com duzentos acontecimentos por página, parece um conto de fadas malandro, com porres fenomenais, pessoas absolutamente maravilhosas, ligeiramente mágico (daquela mágica que só um porre desbragado é capaz de convencer) e um tipo de épico humano, sincero e safado. Reli há pouco, porque tem uma edição linda nova aqui da Record (disclaimer: onde trabalho atualmente, já avisei) e achei impressionante como eu me lembrava das cenas, das personagens, das presepadas. Mas foi meio surpresa descobrir as frases monumentais, a sabedoria fresca de quem sabe que a coisa mais bonita do mundo é gente e a beleza espantosa da relação entre os três, porque profundamente calcada nas diferenças, ao mesmo tempo em que encontra um fundo de afeto firme com as cercas que Miúdo, o neto gigante, constrói. Li em umas três horas, e com certeza vou levar pelos próximos trinta anos.
passou batido
Uma pérola em que quase ninguém prestou atenção
Knulp, Hermann Hesse
tradução Julia Bussius (<3)
Todavia, 112 pp.
Se Goethe abriu o século 19 na Alemanha comendo solto com o rigor trágico do romantismo, Hesse fechou o século com o antidotozinho maravilhoso para o incontornável, o definitivo, o imutável que é este livrinho. Knulp é um andarilho de uma sabedoria de beija-flor, que encanta e é encantado com tudo que encontra por aí, avesso às permanências e aos compromissos, aos problemas insolúveis e às tragédias anunciadas. Elegante e leve, ele flana por cidades em que todos trabalham demais, sofrem demais, espalhando seus frescor de quem não tem casa, preocupado em ser agradável, relativizando pontos de vistas. Os três contos no livrinho passam rápido como Knulp pela cidade, e são cheios de velhos amigos saudosos, recepções simples e calorosas, e olhos mansos de moças enamoradas. Meio fábula, meio festa, é de uma leveza rara e faz a gente ficar meio íntimo do Knulp, esse sábio gentil que sempre conhece o melhor caminho.
Ninguém (ou quase ninguém) reparou, mas semana passada não teve A Lábia. Foi a canseira, conforme resumidamente explicado. Para casos assim, não esqueça que vai se armando nesse substack uma pilha de texto sobre tanta coisa, basta dar uma passeadinha por aí que você pode encontrar livros Sobre a amizade, Sobre deboche, Sobre a família, Sobre a mentira, Sobre a angústia, Sobre a língua, Sobre humor etc etc
Servindo bem para servir sempre, botei links em todos os títulos dos livros de que eu falo aqui. Você jamais encontrará um link da Amazon: são todos caminhos para as editoras que fazem esses livros incríveis. Claro que você pode comprar na livraria mais perto da sua casa, compre livros de quem ama os livros, sempre. Se for comprar na Amazon, paciência, entendo, mas pelo menos faça isso com culpa. Pode ser uma militância nanica, mas é a minha militância.
E digo mais: Pessoal em São Paulo fez uma iniciativa maravilhosa de juntar um coletivo e montar o Mapa das Livrarias de Rua de São Paulo. É lindo, coletivo, saudável pra fauna e pra flora editorial. Vá a livrarias, compre livros de livreiros.






Muito boa sua lista! Acrescento um ranço (meu) de quem recebe muito livro pra fazer matéria: livro de protagonista de profissão criativa que entra em crise existencial e sai pelo mundo comendo novinha. Até achei que a moda tinha passado, mas até a musa Virginie Despentes caiu nesse plot! Rs
Macalé maravilhoso! também acho que barulho de mar embala a leitura.